A história de Corbélia: da mata fechada à Cidade das Flores



A história de Corbélia: da mata fechada à Cidade das Flores


Toda cidade possui uma origem. Algumas nasceram às margens de rios, outras cresceram ao redor de estradas ou centros comerciais. Corbélia, no Oeste do Paraná, teve uma trajetória diferente: antes de existir como município, foi idealizada por pessoas que enxergaram potencial em uma região ainda coberta pela mata.

Muito antes da abertura de ruas, da construção de praças e da formação de bairros, o território onde hoje está Corbélia era composto por extensas áreas de floresta nativa. Árvores de grande porte dominavam a paisagem e rios cortavam a região, que permaneceu praticamente isolada durante décadas.

Segundo historiadores, os primeiros habitantes da região foram os indígenas Caingangues. Vestígios encontrados às margens do Rio Piquiri comprovam a presença desses povos muito antes da chegada dos colonizadores.

A chegada dos primeiros moradores


No final da década de 1940, famílias vindas principalmente de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul começaram a se deslocar para o Oeste do Paraná em busca de novas oportunidades. Naquele período, a infraestrutura era praticamente inexistente. Em muitos trechos, os próprios colonizadores precisavam abrir caminhos na mata utilizando facões e foices, formando as chamadas “picadas”.

As viagens eram longas e difíceis. Muitas famílias passavam semanas na estrada transportando seus pertences em carroças, enfrentando condições precárias até chegar ao destino.

De acordo com registros históricos e relatos preservados pela memória local, uma das primeiras famílias a se estabelecer na região foi a de Pedro Druczkoski, que chegou em 1947 vindo de Mallet, no Paraná. Ao chegar, encontrou apenas mata fechada e uma pequena mercearia isolada.

As dificuldades eram constantes. A primeira lavoura da família foi destruída por uma infestação de gafanhotos. Em determinado momento, para evitar a fome, Pedro precisou trocar roupas por mandioca na pequena venda existente na região.

Outra família importante na história local foi a família Souza. Elvino Nascimento de Souza, que também chegou em 1947, tornou-se uma figura relevante por ter vendido as terras onde Armando Zanato realizaria posteriormente o loteamento que deu origem à cidade.

Pouco tempo depois, outras famílias vindas de localidades como Canoinhas, Passo Fundo e diversas cidades do Sul do Brasil passaram a ocupar a região. Os pioneiros se espalharam por áreas que atualmente pertencem a municípios como Iguatu, Anahy e Braganey, além de diversas comunidades do interior. Naquela época, toda essa área fazia parte do município de Foz do Iguaçu.

O surgimento da futura cidade


À medida que novas famílias chegavam, pequenas comunidades começavam a surgir em meio à floresta. O período era marcado por desafios relacionados à ocupação territorial, disputas por terras e dificuldades típicas de uma região em processo de colonização.

Foi nesse contexto que chegou Armando Zanato, funcionário da Fundação Paranaense de Colonização e Imigração (FPCI). Natural de Carazinho, no Rio Grande do Sul, ele atuava na região como mediador de conflitos e, durante suas viagens pelo Oeste paranaense, passou a enxergar potencial em uma área ainda pouco ocupada.

Segundo relatos preservados pela tradição local, Armando Zanato teria escolhido o local onde hoje se encontra a Praça Paraguai para iniciar seu projeto. Conta-se que ele cortou dois taquaruçus, confeccionou uma cruz e a cravou no solo, declarando sua intenção de construir uma cidade naquele local.

Apesar da disposição, os recursos financeiros eram limitados. Para viabilizar o empreendimento, Armando Zanato uniu-se a Francisco Mânica, João Fredolino Dilemburg e Homero Baú. Juntos, fundaram em 10 de junho de 1954 a LIPAL – Loteadora Industrial Paranaense Ltda., empresa responsável pelos loteamentos urbanos que dariam origem à futura Corbélia.

Embora a fundação da LIPAL tenha ocorrido em 1954, a data simbólica escolhida por Armando Zanato para marcar o nascimento da cidade foi 28 de outubro de 1953, coincidindo com o dia de São Judas Tadeu, padroeiro local. Essa data foi utilizada como aniversário de Corbélia até sua emancipação político-administrativa, em 1961, quando a comemoração oficial passou para 8 de dezembro.

A origem do nome Corbélia


Antes mesmo da efetiva formação da cidade, o novo povoado já possuía nome.

A origem está na palavra francesa “corbeille”, que significa pequeno cesto de flores. Segundo a tradição local, a sugestão partiu de Iracema Zanato, esposa de Armando Zanato.

Na ocasião, Iracema confeccionava uma corbélia encomendada pelo Veterano Futebol Clube de Carazinho para um amistoso contra o Club Atlético Peñarol, do Uruguai. A palavra chamou a atenção e acabou sendo escolhida para batizar a futura cidade.

Com o passar dos anos, o município adotaria o apelido pelo qual é conhecido atualmente: Cidade das Flores.

Os primeiros anos de desenvolvimento


Construir uma cidade em meio à mata exigiu grande esforço dos pioneiros. Árvores precisaram ser derrubadas, ruas abertas e moradias construídas praticamente do zero.

Os primeiros barracões de madeira começaram a surgir, enquanto carroças circulavam pelos caminhos de terra. A infraestrutura era extremamente simples. Poços precisavam ser abertos para garantir o abastecimento de água, e muitas famílias lavavam roupas em um local conhecido como Buraco do Taquariano, onde atualmente está localizado o lago municipal.

A iluminação dependia de lamparinas e lampiões a querosene. As notícias chegavam principalmente pelo rádio, e grande parte dos mantimentos era adquirida por meio de cadernetas de crédito mantidas pelos comerciantes locais.

Entre os primeiros estabelecimentos comerciais destacavam-se os armazéns de secos e molhados de Ivo Farias e Calisto Tomazoni, que comercializavam produtos a granel e tecidos vendidos por metro.

Fé e organização comunitária


A religião teve papel importante no desenvolvimento da comunidade.

Ainda em 1953, Armando Zanato trouxe para Corbélia o primeiro padre da localidade, Bernardo Lube. No ano seguinte, foi construída a primeira capela católica.

Na comunidade luterana, o processo ocorreu de forma semelhante. As primeiras famílias chegaram também em 1953, e o primeiro culto evangélico foi realizado em 1955, na residência de Gustavo Scharlau.

As celebrações religiosas inicialmente aconteciam de maneira simples, mas contribuíram para fortalecer os laços comunitários e a organização social dos moradores.

Crescimento e consolidação


Ao longo da segunda metade da década de 1950, Corbélia apresentou crescimento constante. A agricultura se consolidou como base econômica da região, novas famílias chegaram e o comércio expandiu gradualmente suas atividades.

Serrarias, armazéns, pequenas vendas e diversos serviços passaram a atender uma população cada vez maior. O que antes era uma área coberta por mata transformava-se progressivamente em um núcleo urbano estruturado.

Com o passar dos anos, a cidade continuou se desenvolvendo. Novas estradas foram abertas, bairros surgiram e a infraestrutura foi ampliada para acompanhar o crescimento populacional.

O legado dos pioneiros


A história de Corbélia está diretamente ligada ao esforço das famílias pioneiras que enfrentaram as dificuldades da colonização do Oeste paranaense.

Em uma época marcada pela ausência de infraestrutura, pela distância dos grandes centros e pelos desafios cotidianos da vida no interior, esses moradores contribuíram para a formação de uma comunidade que se transformaria em um dos importantes municípios da região.

Atualmente, Corbélia preserva em sua memória a trajetória daqueles que chegaram quando o local ainda era conhecido apenas como sertão e mata fechada. O trabalho, a organização comunitária, a agricultura, a fé e o espírito empreendedor dos pioneiros foram fundamentais para a construção da cidade que hoje é conhecida como a Cidade das Flores.

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