Biografia de Iracema Zanato




Dados Biográficos de Iracema Luiza Goellner Zanato



Iracema Luiza Goellner Zanato nasceu na Colônia Ernestina, município de Passo Fundo, Rio Grande do Sul — atualmente município de Ernestina — região gaúcha onde nasceram e viveram pessoas simples e amigas, voltadas às atividades agropastoris. Iracema nasceu em 27-10-1912.

Seu nome e sua obra fizeram parte da história do oeste do Paraná. Junto a seu esposo, Armando Zanato, foi Iracema quem escolheu o nome da cidade de Corbélia-PR.

Quando ainda jovem, cursou o primário (primeiro grau) em uma escola evangélica em Não-Me-Toque-RS. Sempre teve grande sensibilidade às flores. Desde jovem, aprendeu com a mãe, Olga Lídia Goellner, a arte de confeccionar flores — um artesanato lindo que se estabeleceu na família durante muitos anos, ajudando no provento familiar.

CASAMENTO E VIDA FAMILIAR


Com o tempo, a família mudou-se para Pulador, distrito de Passo Fundo, onde viveu até seu casamento com Armando Zanato, realizado em Carazinho, no dia 24 de janeiro de 1933.

O celebrante do casamento foi o Padre João Batista Sorg. Como Iracema era evangélica e Armando católico, ela se comprometeu a educar os filhos na religião católica — e assim o fez.

MUDANÇAS, DIFICULDADES E TRABALHO

Os tempos eram difíceis, e as enfermidades não tinham os diagnósticos da atualidade. Sempre esteve junto ao esposo e aos filhos. Nunca abandonou a arte aprendida com sua mãe, a senhora Olga Lídia Goellner: o artesanato de flores, usadas nos cabelos e nas roupas das senhoras, largamente utilizadas naquela época. Com o dinheiro que conseguia, ajudava no sustento da família.

Nunca reclamou das dificuldades enfrentadas. Fizeram algumas mudanças de domicílio, sempre buscando o melhor para a família. Residiram em Palmeira das Missões, Iraí e também na área rural onde a família Zanato possuía uma indústria rudimentar para a fabricação de rapadura, melado, açúcar mascavo e cachaça. Foi um tempo extremamente difícil, como os demais.

No início da década de 1940, transferiram novamente a residência, dessa vez para Carazinho, última cidade em que residiram no Rio Grande do Sul.

Nessa cidade nasceram três de seus filhos. As necessidades eram grandes, mas sua arte de florista continuava, sempre ajudando o marido e os filhos. De Carazinho veio a mudança definitiva: o sertão do oeste do Paraná.

Quando a sorte deu um empurrãozinho


Em Carazinho começou nova etapa da vida de Armando, Iracema e dos filhos. Armando comprou meio bilhete da loteria do Rio Grande do Sul, que foi premiado com o segundo prêmio da extração. Com isso, foi possível comprar um quarteirão inteiro em um bairro denominado Santo Antônio, em frente a um estádio de futebol chamado Veterano Esporte Clube.

A vida da família estava melhorando. Armando foi convidado a assumir o cargo de corretor para a venda de terras no oeste do Paraná. A empresa era uma companhia estatal denominada Fundação Paranaense de Colonização e Imigração (FPCI). Armando foi a Curitiba e firmou os documentos necessários.

Foi conhecer Cascavel depois de ter vendido o saldo de lotes em Porto Sol de Maio e Barbosa Ferraz. Foi convidado, então, para assumir as vendas em Cascavel, que, naquela época, vivia tempos violentos com posseiros e jagunços, representando um trabalho bastante arriscado.

Periodicamente, ia a Carazinho ver a família, resolver os problemas de escola dos filhos e tratar do sustento familiar, aproveitando para levar compradores de terras de Carazinho para Cascavel.

O NASCIMENTO DO NOME CORBÉLIA


Em uma dessas viagens, mostrando as terras à venda, encontrou um entroncamento de dois caminhos e resolveu que ali fundaria uma cidade.

De volta a Carazinho, falou de seu plano com Iracema e disse que daria um lote urbano a quem sugerisse o nome mais bonito para a nova cidade.

Nesses dias, Iracema estava produzindo uma corbélia a pedido do Veterano Esporte Clube, para ser doada a um time de futebol do Uruguai que viria disputar um amistoso em Carazinho. Receberiam, assim, uma corbélia como gesto de amizade.

Iracema então disse que seria um nome bonito: Corbélia, cidade das flores. Assim, o nome da cidade nasceu primeiro no coração de Iracema e Armando, depois em documentos oficiais.

Iracema teve onze filhos.

EXPERIÊNCIAS MÍSTICAS

Em sua vida, viveu duas experiências místicas., a primeira aconteceu em uma tarde muito quente, quando estava cansada das tarefas domésticas. Foi sentar-se à sombra, nos fundos da casa, para amamentar um de seus filhos ainda pequeno. Próximo dali havia uma cerca que dividia o terreno, e nela havia uma roseira carregada de pequenas rosas. Como florista, contemplava a beleza das flores.

Sem aviso, apareceu sobre essa roseira florida Nossa Senhora com o menino Jesus no colo. As duas mulheres ficaram algum tempo olhando e sorrindo uma para a outra. O menino Jesus e seu filho que estava sendo alimentado também sorriam um para o outro, sem nada dizer, pois ainda não falavam devido à idade. Assim, os dois sorriam um para o outro, e as duas mulheres também sorriam, sem nada dizer. Quando uma mãe aparece para outra, não são necessárias palavras; elas se entendem de coração a coração.

Mais tarde, já morando em Carazinho, outro filho foi internado, passando muito mal. Quando Iracema foi visitá-lo, o médico, bastante sério, disse-lhe que o caso era muito grave. Aos prantos, dirigiu-se à capela para rezar. Em duas orações, prometeu a Jesus que, se salvasse seu filho, seria batizada católica. Fez suas preces e foi ao quarto ficar com ele.

No dia seguinte, ao visitá-lo, ficou muito contente, pois o menino estava muito melhor. Em poucos dias, a criança já estava em casa, brincando com os irmãos. Iracema recebeu o batismo na Igreja Católica e também o sacramento da Crisma.

A MUDANÇA PARA O OESTE SELVAGEM


Quando aconteceu a mudança de Carazinho para Cascavel, a família ficou hospedada no Hotel Gaúcho até que fosse construída uma casa onde seria fundada a cidade de Corbélia.

Quando ficou pronta a construção — comprida e estreita — Iracema e a família mudaram-se para a já chamada Corbélia.

Foi traumático deixar Carazinho, com o conforto de uma cidade limpa, com força e luz dia e noite, para passar a viver em um desconforto total. Ali, Iracema ajudou a família a enfrentar a nova situação com humildade e firmeza. Foram dias de provação vividos por pessoas que davam o melhor de si para vencer tantas dificuldades. Iracema foi esse alicerce sobre o qual uma nova história seria contada.

Dessa casa, que mais parecia um barraco — onde hoje é a Avenida Paraná — a família mudou-se para outra casa construída de modo diferente: bonita, pintada de amarelo e com maior conforto para todos.

Essa casa tinha seus quartos, um dos quais foi habitado pelo Padre Bernardo Lube até a construção da primeira capela, que tinha um quarto ao lado para o sacerdote. Ele continuou fazendo as refeições na casa de Iracema e Armando. Ali também tinha suas roupas lavadas e consertadas, até que foram construídas a igreja e a casa paroquial.

SOLIDARIEDADE E SERVIÇO À COMUNIDADE


Iracema foi mãe de muitas famílias que vinham de diversas regiões para construir suas casas em suas terras. Naquele tempo, o pão era assado em fornos a lenha. Não poucas vezes eram feitas duas fornadas para alimentar as famílias que vinham tomar posse de suas terras.

Nos invernos, muitas vezes rigorosos, havia necessidade de doar cobertores aos que não estavam acostumados ao frio. Iracema e Armando faziam o possível para socorrer quem precisasse. Muitas vezes, pessoas com problemas de saúde ou vítimas de acidentes domésticos vinham buscar ajuda, e sempre eram atendidas.

Iracema também ajudou a atender partos, pois não havia parteira. Quando chegou a primeira parteira a Corbélia, Iracema foi dispensada dessa tarefa.

CURITIBA E OS ÚLTIMOS ANOS


Mais tarde, com os filhos necessitando estudar, Armando alugou uma casa em Curitiba, onde Iracema passou a morar com os filhos. Armando passava dias em Corbélia e também ia com frequência a Curitiba, onde ainda tinha negócios com a FPCI.

Corbélia foi apenas um capítulo na vida de Iracema — um capítulo de uma história marcada pela doação ao próximo, na criação e educação dos filhos, semeando amor por onde viveu.

Já idosa, com problemas de saúde agravados pelos desafios que a vida lhe propôs, Iracema aos poucos foi definhando. Primeiro um AVC, depois outro e, ao final, entregou sua alma ao Supremo Autor da vida. Faleceu na casa onde morava com sua filha mais velha.

Pouco tempo antes, sua filha Edila e a neta Silvana haviam morrido tragicamente em um acidente. Então, Iracema pediu que, quando morresse, fosse sepultada em Curitiba, junto à filha e à neta que perderam a vida no acidente.

Quanto a Armando, foi diferente. Antes de morrer, pediu que seu corpo fosse sepultado em Corbélia — e assim foi feito. Faleceu em Curitiba no dia 15.03.1986, e seu corpo foi sepultado na cidade que escolheu.

LEGADO


Iracema deixou um exemplo de vida que procuramos seguir com humildade, bondade e perseverança no bem. Assim, Iracema e Armando deixaram este mundo para habitar a casa do Pai, onde, se merecermos, nos encontraremos.

Texto escrito por Elcio Zanato, filho de Armando e Iracema
Revisão e restauração das imagens : Jaciano Eccher/Corbélia Filmes.



Imagem original: Casal Armando e Iracema Zanato


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