Sulcos de Memória: o arado e a tração animal no Sul do Brasil




— Vai na verga, Pintado!
— Pra cima, Queimado!
— Oh! Vira!


Esses eram sons comuns no cotidiano rural antes da mecanização. A cena do homem guiando a junta de bois atrás do arado sintetiza muito mais do que uma técnica agrícola: ela representa um modo de vida inteiro. Arar não era apenas preparar o solo, mas um gesto quase cerimonial, construído a partir da observação, da experiência, da sensibilidade e dos ensinamentos transmitidos de pai para filho — como também ocorre em outros relatos sobre a vida rural no Sul do Brasil, já abordados aqui no site.

O agricultor conhecia o solo com o corpo e com os sentidos. Sabia reconhecer o momento exato de entrar na roça, quando a umidade estava correta e a terra “respondia” ao arado. A junta de bois, unida pela canga de madeira e puxando o arado, integrava-se naturalmente ao cenário das pequenas propriedades, exigindo equilíbrio, sincronia e cuidado, inclusive na escolha dos animais, algo recorrente em textos sobre a tração animal nas colônias do Sul.

O arado, simples na forma e engenhoso na função, revirava a terra em sulcos longos e regulares — marcas visíveis do esforço diário, que o lavrador chamava de verga. Caminhando atrás dele, o homem ajustava cada passada com atenção constante, em um trabalho que exigia força medida, equilíbrio, presença plena e ausência de pressa, características também observadas em estudos sobre os antigos instrumentos agrícolas utilizados no meio rural.


Técnicas para a direção do arado


Guiar um arado era, de certa forma, como conduzir um meio de transporte. Pode-se comparar a uma bicicleta ou a uma moto: ao pender os cabos do arado para a esquerda ou para a direita, a pá se deslocava no sentido oposto, permitindo que a verga saísse reta. Esse movimento dava ao lavrador um controle bastante preciso da direção, semelhante ao descrito em relatos sobre o uso do arado tradicional puxado por bois.

Quando os bois eram bem mansos, esse controle era suficiente. Porém, se os animais fossem “mal amansados”, “bardosos” ou, por qualquer razão, resolvessem sair da rota, apenas pender os cabos já não bastava. Nesses casos, o lavrador gritava comandos como “Vai na verga!” ou “Pra cima!”, tentando trazê-los de volta ao alinhamento correto.

Se ainda assim não adiantasse, era preciso recorrer a medidas mais drásticas. O lavrador parava os bois e dava a ordem de “Fastra!”, puxando simultaneamente ambas as cordas. Isso fazia com que os bois dessem marcha ré, permitindo o realinhamento do arado antes de continuar o trabalho — uma prática comum descrita em memórias sobre a lida diária nas pequenas propriedades rurais.

Outro recurso de direção era o uso das cordas individuais. Cada boi tinha uma corda presa ao chifre, que passava pela orelha — uma parte sensível do animal. Ao puxar, por exemplo, a corda do boi da esquerda, ele mudava seu curso para aquele lado. Como a junta era unida por uma tira de couro ou corda chamada ajoujo, presa entre os chifres, o comando dado a um boi era imediatamente transmitido ao outro, reforçando a importância do manejo correto da junta.

Comandos de voz

    Vale lembrar que cada região utilizava seus próprios comandos de voz, e que essas palavras podiam sofrer pequenas variações até mesmo dentro da mesma localidade. De modo geral, os comandos serviam para fazer os bois avançarem, pararem, acelerarem o passo ou mudarem de direção. Quando os animais eram bem mansos, muitas vezes nem era necessário puxar cordas ou usar açoite: os comandos de voz eram suficientes.

Na minha família, alguns dos comandos mais comuns eram:

  • “Vai!”, “Vai, boi!” ou “Vai + nome do boi” (ex.: “Vai, Queimado”) — comando de partida, equivalente a acelerar e soltar a embreagem.

  • “Oh!!” — comando para parar.

  • “Na verga, Zebu!” ou “Vai na verga!” — usado para chamar a atenção dos bois e verificar se tudo estava alinhado; geralmente o boi do lado mais baixo do terreno precisava caminhar dentro da verga.

  • “Pra cima!” ou “Pra baixo!” — indicava que os bois deveriam subir ou descer, conforme a necessidade do terreno.

  • “Vira!” — comando dado ao final de cada verga, para que os bois fizessem o retorno e iniciassem uma nova passada.


Esse preparo do solo estava profundamente ligado à cultura rural do Sul do Brasil. O tempo era ditado pelo sol, pela chuva e pelos limites da terra, não pelo relógio. O trabalho também era um espaço de transmissão de saberes: pais ensinavam filhos, avôs orientavam netos, não apenas sobre a técnica, mas sobre paciência, responsabilidade e respeito — valores presentes em outras narrativas sobre a formação das comunidades agrícolas da região.

Havia ainda uma ética implícita nesse modo de lavrar. Sabia-se quando parar, quando esperar e quando a terra precisava descansar. Cada sulco carregava memória — de safras boas e ruins, de estiagens e farturas — formando um patrimônio silencioso de conhecimento empírico.

Hoje, ao olhar para essa cena, não se vê atraso, mas sabedoria acumulada. Resgatar essa memória é compreender as raízes do campo sulino e reconhecer que o progresso se constrói sobre o trabalho paciente daqueles que escreveram sua história diretamente na terra.

Além do valor simbólico, a aração com tração animal também apresentava vantagens práticas: menor compactação do solo, maior controle em terrenos irregulares e adaptação às pequenas áreas cultivadas nas colônias. O uso da canga, talhada artesanalmente, e dos arados de madeira reforçados com ferro revela uma tecnologia simples, porém perfeitamente ajustada às condições ambientais e econômicas da época, tema recorrente em estudos sobre a agricultura tradicional no Sul do Brasil.

Mesmo após a chegada dos tratores, esse saber não desapareceu por completo. Em muitas regiões do Sul, a memória da aração com bois permanece viva em relatos familiares, fotografias antigas e objetos preservados, compondo um patrimônio cultural que ajuda a entender não apenas como se plantava, mas como se vivia no campo.

Acompanhe no vídeo abaixo uma explicação feita por Ademar Vol, que ainda trabalha com bois em seu dia a dia.


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Comentários

  1. Anônimo4/2/26 07:13

    Nos usava arado vira chapa pública gado por cavalo povo que veio de Santa Catarina já os gaúchos usavam boi

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  2. Anônimo4/2/26 07:19

    Parece que ainda sinto o cheiro da terra tombada, as aves se aproximando para comer insetos, o eco das pessoas trabalhando vinha de todo lado.

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