Poços antigos e a arte de “explorar água”: como as famílias encontravam água antigamente
Você acorda pela manhã, lava o rosto, escova os dentes, usa o vaso sanitário, dá a descarga e depois enche a chaleira para preparar o café. Tudo isso acontece de forma tão natural que raramente percebemos o quanto dependemos da água no nosso dia a dia.
Mas nem sempre foi assim.
Há algumas décadas, bastava girar a torneira? Não. Ter água encanada era luxo. Em muitas casas, luxo mesmo era possuir um poço no jardim — ou até dentro da própria residência.
A importância da água na escolha do terreno
Ao comprar um terreno ou um sítio, a primeira preocupação era simples e direta: há água no local?
Se houvesse uma nascente ou um ponto favorável, a casa era construída o mais próximo possível dali. Algumas residências tinham o poço no jardim; outras, na área ou até no porão, tudo para facilitar a retirada da água.
Isso porque o sistema era totalmente manual.
Como funcionava um poço antigo
Os poços eram geralmente revestidos para evitar desmoronamentos. Na maioria das vezes utilizavam tijolos dispostos em formato cilíndrico, formando as paredes internas. A parte superior se elevava entre 50 cm e 1,20 m acima do solo.
Depois, era coberta com tábuas para impedir a entrada de folhas, poeira e pequenos animais, além de evitar acidentes.
Sobre o poço ficava a estrutura principal:
A corda era enrolada no rolo, e em sua extremidade havia um gancho onde o balde era preso. Girava-se a manivela para o balde descer até a água. Após encher, era puxado novamente pelo mesmo sistema.
Era assim que se obtinha água para:
Tudo exigia esforço físico.
Quando o poço ficava longe
Nem sempre era possível construir a casa próxima à água. Nesses casos, o trabalho era ainda mais pesado: baldes precisavam ser transportados por centenas de metros — às vezes quilômetros.
Somente anos depois surgiu a possibilidade da água encanada nas residências. No início, era privilégio de poucos e funcionava principalmente por gravidade, exigindo que as casas fossem construídas abaixo do nível das nascentes ou reservatórios.
A profissão de “explorar água”
Existia também uma habilidade que muitos consideravam quase um dom: descobrir onde havia água no subsolo.
Meu pai, Lucídio Ecker, tinha essa habilidade. Ele chamava simplesmente de “explorar água”.
O nome técnico mais conhecido para essa prática é radiestesia, também chamada de rabdomancia. Trata-se de uma técnica tradicional em que se utiliza uma forquilha de madeira para indicar a presença de água subterrânea.
Hoje se sabe que não há comprovação científica da eficiência da técnica em testes controlados. No entanto, durante décadas, muitas famílias recorreram a pessoas com esse conhecimento para orientar onde abrir um novo poço.
Meu pai muitas vezes prestou esse tipo de serviço, ele sempre dizia, com orgulho, que nunca havia errado um ponto sequer.
Como funcionava a técnica da forquilha
Cortava-se uma forquilha de madeira verde e flexível, que não quebrasse com facilidade. Algumas plantas utilizadas eram:
O “explorador” segurava a forquilha de cabeça para baixo, com os pulsos voltados para cima, fazendo força como se tentasse quebrá-la. A madeira precisava ser resistente justamente para suportar essa tensão.
A pessoa caminhava lentamente pelo terreno.
Quando passava sobre um ponto onde acreditava haver água, a forquilha se curvava para baixo com força, apontando para o chão. Se ultrapassasse o ponto ideal, a intensidade diminuía.
Com vários testes no mesmo local, definia-se o ponto exato para cavar o poço.
Tradição, saber popular e ciência campeira
Era a chamada “
ciência campeira”. Conhecimentos transmitidos de geração em geração, assim como:
- O uso de plantas medicinais
- A identificação de plantas venenosas
- A leitura do vento para prever o tempo
- A observação da lua para orientar plantios
Assim era a vida das famílias de décadas atrás: mais esforço físico, mais dependência da natureza e muito saber popular.
Texto de Jaciano Eccher.
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Bom dia eu aí da faço isso estou no Maranhão aqui faço com forquilha de goiaba aí no sul de pêssego aprendi com meu pai Paulo de souza
ResponderExcluirQue legal, eram aprendizados que eram passados de pai pra filho
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