Hoje resolvi escrever um texto nostálgico para quem viveu e estudou na segunda metade do século passado, mas também informativo e cultural para quem pesquisa ou tem curiosidade em saber como funcionava uma escola no final do século XX. Para isso, vou me basear tanto em minha própria experiência quanto nos depoimentos que recebi durante as entrevistas realizadas para os documentários do projeto Corbélia e suas Raízes.
Eu estudei na década de 1990 em uma pequena escola do interior, onde não existia energia elétrica. Apesar da época relativamente recente, quase nada se diferenciava dos relatos que ouvi de pessoas que frequentaram escolas rurais décadas antes.
A escola em que estudei era do tipo conhecido como "Brizoleta". Para quem não sabe, as Brizoletas foram milhares de pequenas escolas rurais construídas no Rio Grande do Sul durante o governo de Leonel Brizola, entre 1959 e 1963. O apelido carinhoso foi dado pela própria população em homenagem ao governador, idealizador do projeto, que tinha como lema: "Nenhuma criança sem escola no RS".
No meu caso, a escola era uma pequena construção de alvenaria, composta por apenas uma sala de aula, uma área coberta e uma pequena despensa que também servia como cozinha. Tudo era bastante modesto. No total, acredito que a construção não passasse de 50 metros quadrados.
Banheiro não existia. O que havia era uma "patente", nome dado a uma pequena casinha de madeira utilizada para as necessidades fisiológicas. Geralmente, essas estruturas eram construídas sobre uma fossa e possuíam apenas uma tábua com uma abertura circular. Nada de água encanada ou descarga.
No caso específico da nossa escola, nem mesmo fossa havia. A casinha ficava próxima a uma sanga — nome dado no Rio Grande do Sul a um pequeno rio ou córrego — e os dejetos eram lançados diretamente na água, sem qualquer preocupação ambiental ou sanitária, algo comum para a época em muitas comunidades rurais. A patente ficava cerca de 300 metros distante da escola, o que tornava tudo mais complicado nos dias de chuva.
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| Mimeógrafo |
Mas voltando à escola e ao seu funcionamento, tínhamos apenas uma professora. Ela era responsável por ensinar os alunos, preparar as refeições e cuidar da limpeza do local.
Entre os alimentos servidos estavam creme de chocolate, café com biscoitos e até pratos mais elaborados, como macarrão com almôndegas ou arroz com sardinha enlatada. Minha irmã mais velha conta que, no tempo dela, também era servido charque, embora eu nunca tenha experimentado na escola.
Além de professora, ela também era a faxineira. Em dias chuvosos, era ela quem passava pano no assoalho. Já tarefas como varrer a sala, encerar o piso e lustrar a madeira eram realizadas pelos próprios alunos. Nos minutos finais de algumas aulas, a professora organizava uma pequena escala de colaboração.
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| Borracha de duas cores - O grande mito |
A escola também não possuía água encanada. Por isso, os alunos se revezavam para buscar água na propriedade do vizinho mais próximo, localizada a cerca de 500 metros dali. Havia um poço com manivela no jardim. Enganchávamos os baldes metálicos em uma corda e os baixávamos até a água. Depois, bastava girar a manivela para trazê-los de volta cheios.
Normalmente íamos em dupla. Essa água era utilizada para beber, preparar os alimentos e até para a higiene das mãos quando necessário.
Quanto às turmas, a escolinha atendia alunos da 1ª à 4ª série, equivalentes hoje ao 1º ao 4º ano do Ensino Fundamental. Duas séries estudavam no período da manhã e duas no período da tarde. Geralmente, a 1ª e a 3ª série frequentavam um turno, enquanto a 2ª e a 4ª estudavam no outro.
Para conseguir atender duas turmas simultaneamente, a professora dividia o quadro-negro ao meio com um risco de giz. As carteiras também eram organizadas em lados distintos da sala. Assim, os alunos de uma série acompanhavam as atividades escritas em uma metade do quadro, enquanto os da outra série utilizavam a metade oposta. Era uma forma engenhosa de ensinar duas turmas ao mesmo tempo em uma única sala.
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| Lápis com tabuada |
Quanto aos materiais escolares, no meu tempo já utilizávamos cadernos, mas eram os chamados cadernos de capa simples. Os cadernos de capa dura eu só conheceria anos depois, quando passei a estudar na zona urbana.
Além dos cadernos, utilizávamos lápis e borracha. Existia um modelo de lápis com a tabuada impressa no corpo, que era o meu favorito. Havia também lápis com borracha acoplada. Caneta só podia ser utilizada a partir da 2ª série e, mesmo assim, apenas em determinadas atividades.
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| Carteira escolar anos 70 |
Outro item icônico da época era a famosa borracha de duas cores. Teoricamente, uma das extremidades serviria para apagar tinta de caneta. Hoje sabemos que aquilo era praticamente uma lenda escolar. Na prática, dificilmente funcionava e frequentemente rasgava o papel antes de apagar qualquer coisa.
Para reproduzir provas e atividades, a professora utilizava um mimeógrafo. Era um equipamento bastante comum na época, que funcionava por meio de uma matriz, também chamada de estêncil, e utilizava álcool para transferir a tinta para as folhas.
Na minha escola não havia máquina de datilografar. Por isso, as matrizes já vinham prontas de casa, quase sempre escritas à mão pela própria professora. Ela também era uma excelente desenhista. Em trabalhos mais criativos, preparava ilustrações que depois eram reproduzidas no mimeógrafo para todos os alunos.
Logo após a impressão das atividades, a sala inteira ficava impregnada pelo cheiro característico do álcool do mimeógrafo. Era um aroma muito particular, capaz de despertar lembranças instantâneas em quem viveu aquela época.
Comparando minhas lembranças com os diversos depoimentos que ouvi durante as entrevistas do projeto Corbélia e suas Raízes, percebi que as diferenças eram poucas. Variavam principalmente os materiais utilizados e as construções escolares.
Nas décadas anteriores, especialmente logo após os anos 1950, muitas escolas eram construídas em madeira. As carteiras também eram feitas de madeira rústica e frequentemente acomodavam até quatro alunos em um único conjunto.
Outra curiosidade interessante é que, na primeira metade do século XX, muitos alunos sequer utilizavam cadernos. Em vez disso, escreviam em pequenas lousas individuais de ardósia, uma espécie de quadro-negro portátil. Após cada atividade, tudo era apagado para que a lousa pudesse ser reutilizada. Como nada ficava registrado, os estudantes dependiam muito mais da memorização dos conteúdos.
Assim funcionava uma simples escola rural da segunda metade do século passado. Hoje, pouca gente conhece essa realidade. No entanto, tenho certeza de que muitos leitores ainda se lembram do cheiro do material escolar, das amizades construídas na infância, da professora que marcou suas vidas ou até mesmo daquele primeiro amor surgido nos bancos da escola.
Postagem Jaciano Eccher






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