Carlitão : Projeto Corbélia e suas Raízes.

 .

Imagem meramente ilustrativa - Envie imagens do Carlitão para nós


Comunidade Carlitão: a história de uma das raízes mais tradicionais do interior de Corbélia


A comunidade Carlitão é uma das localidades rurais mais marcantes da história de Corbélia. Formada por famílias pioneiras vindas de diferentes regiões do Brasil, principalmente do Norte do Paraná, Minas Gerais e interior paranaense, a comunidade preserva memórias de um tempo em que a vida era construída com esforço manual, união entre vizinhos e muita resistência diante das dificuldades do campo. O registro faz parte do projeto Corbélia e Suas Raízes, desenvolvido por Corbélia Filmes, e que conta a sua parte na história de Corbélia.

A chegada das primeiras famílias ao Carlitão


Os relatos dos moradores mostram que a ocupação da comunidade começou entre o fim da década de 1960 e início dos anos 1970. Muitos chegaram em meio à mata fechada, terrenos queimados e áreas ainda tomadas por troncos, pedras e carvão das derrubadas.

Seu João Alberto Juliatto relembra que, quando chegou ao local em 1974, havia apenas um vizinho morando na região. Segundo ele, o cenário era extremamente bruto, com muito mato e terras recém-desmatadas:

“Era tudo preto de carvão.”

As lavouras eram abertas manualmente. O trabalho era feito com machado, foice e enxada, muito antes da mecanização chegar ao interior de Corbélia. Os moradores plantavam feijão, arroz e milho no meio das derrubadas, desviando de tocos e pedras espalhadas pela terra.

De onde vieram os pioneiros?


As famílias que construíram o Carlitão vieram de diferentes localidades. Sony Fernandes, conta que nasceu em Campo Belo, Minas Gerais, depois passou por Anahy antes de chegar à comunidade, onde vive há mais de 30 anos. Antonio Mariani, o Luizinho relata que sua família veio da região entre Londrina, Sertanópolis e Ibiporã, no Norte do Paraná, chegando ao Carlitão em 1970.

A família Thierizi veio de Santa Fé segundo Ilton . Em comum, todos compartilham as memórias da mata fechada, das estradas difíceis e da construção praticamente artesanal da comunidade.

Como surgiu o nome Carlitão?


O nome da comunidade nasceu do apelido de um antigo morador: Carlos Thierizi, conhecido popularmente como “Carlitão”. Segundo os relatos, ele era proprietário de terras na região e muito querido pelos moradores locais.

Com o passar do tempo, o apelido ultrapassou a figura da pessoa e passou a identificar toda a localidade. O ponto de ônibus da antiga linha entre Iguatú e Corbélia era conhecido como “Carlitão”, e o time de futebol da comunidade também carregava o nome. Mesmo após o falecimento de Carlos Thierizi, há mais de vinte anos, o nome permaneceu vivo na memória coletiva da região.

Futebol, vendas e vida social intensa


Os moradores lembram que o Carlitão já foi extremamente movimentado. Havia campos de futebol, vendas, cancha de areia e festas comunitárias que reuniam dezenas de famílias. Em dias de jogo, os campos ficavam lotados, com filas de times esperando para entrar em campo.

As antigas “vendas” funcionavam como centros de convivência. Enquanto a chuva caía durante a semana, os moradores se reuniam para conversar, jogar bola e participar das festividades da comunidade. Segundo os entrevistados, havia muito mais interação social do que hoje.

Agricultura antiga: café, algodão e hortelã


Antes da predominância da soja e do milho, o Carlitão produzia diversas culturas agrícolas. Entre elas estavam café, algodão e principalmente a hortelã utilizada para extração de óleo medicinal.

Os moradores explicam que não se tratava da hortelã comum usada para chá, mas de uma variedade cultivada em terras novas. Após a colheita, aconteciam os chamados “puxirões”, mutirões comunitários para cortar e processar a planta. O óleo era armazenado e comercializado para compradores vindos de Londrina, Maringá e outras cidades do Paraná.

Segundo os relatos, a hortelã chegou a ser uma das atividades mais lucrativas da região naquela época.

A igreja e a antiga comunidade Placa Aparecida


Inicialmente, os encontros religiosos aconteciam dentro da escola local. Mais tarde, surgiu o projeto de construção de uma igreja própria. A ideia nasceu de uma promessa feita pela mãe de uma das famílias pioneiras, que desejava erguer uma capela dedicada a Nossa Senhora Aparecida após conseguir comprar um pedaço de terra.

Na época existiam duas comunidades próximas: Carlitão e Placa Aparecida. Porém, com a saída gradual de moradores para a cidade e outros estados, as duas acabaram sendo unificadas em uma única comunidade religiosa. Assim, permaneceu oficialmente apenas o nome Carlitão.

Escola rural e educação no interior


A antiga escola da comunidade também ocupa espaço importante na memória dos moradores. Um dos entrevistados recorda que estudou com o professor Sony Fernandes, o Bambino, que lecionou por cerca de quatro anos na comunidade.

Com o êxodo rural e a redução do número de famílias, o número de alunos caiu drasticamente. Hoje, o transporte escolar leva os estudantes para estudar em outras localidades do município.

Estradas difíceis e isolamento no passado


As dificuldades de transporte eram enormes. Muitos moradores precisavam caminhar longas distâncias carregando compras nas costas devido aos atoleiros e à precariedade das estradas.

Um dos entrevistados relembra que, antes do crescimento de Corbélia, a cidade praticamente não possuía infraestrutura. A antiga rodoviária funcionava no Bar do Inácio, e existiam apenas poucas casas e comércios simples na região urbana.

Folia de Reis, terços e união entre vizinhos


As celebrações religiosas e culturais eram parte essencial da vida no Carlitão. Os moradores recordam das Folias de Reis, realizadas de casa em casa durante a noite, recolhendo ofertas, alimentos e doações para a grande confraternização do Dia de Reis, em 6 de janeiro.

Os terços também reuniam dezenas de famílias. Mesmo caminhando quilômetros por estradas de chão, os moradores participavam das rezas comunitárias iluminadas apenas por lamparinas. Segundo os entrevistados, havia mais convivência, visitas espontâneas e amizades entre os vizinhos.

Uma tragédia que marcou a comunidade


Entre as histórias mais marcantes lembradas pelos moradores está a tragédia de um jovem casal de namorados que ingeriu veneno após uma gravidez inesperada. O caso aconteceu há cerca de 25 a 30 anos e abalou profundamente toda a comunidade rural do Carlitão.

Segundo os relatos, os dois foram levados ao hospital pelo irmão de um dos moradores em um Ford Corcel, mas infelizmente não resistiram. O episódio permanece vivo na memória coletiva da comunidade até hoje.

O projeto Corbélia e Suas Raízes


O documentário sobre a comunidade Carlitão integra o projeto Corbélia e Suas Raízes, produzido por Corbélia Filmes, que busca registrar as memórias das comunidades rurais responsáveis pela formação histórica de Corbélia.

Além do Carlitão, o projeto também percorre outras localidades tradicionais do município, preservando depoimentos, histórias, costumes, dificuldades e lembranças das famílias pioneiras que ajudaram a construir a identidade cultural da região oeste do Paraná. Confira o video documentário na íntergra:

Comentários