A CARROÇA TRADICIONAL DO SUL DO BRASIL
Um meio de transporte que moldou o cotidiano ruralDurante boa parte do século XIX e da primeira metade do século XX, a carroça puxada por bois foi um dos principais meios de transporte no meio rural do Sul do Brasil. Muito mais do que um simples veículo, a carroça fazia parte da paisagem, da economia e da rotina das famílias que viviam da agricultura e da criação de animais.
Hoje, essas carroças são raras. Em muitos casos, sobrevivem apenas como peças de museu, objetos de memória ou relíquias guardadas por famílias que reconhecem seu valor histórico. Mas, no passado, eram ferramentas essenciais para o trabalho e a sobrevivência no campo.
Um veículo simples, mas engenhoso
À primeira vista, a carroça pode parecer uma estrutura rústica e simples. No entanto, sua construção revela um alto nível de conhecimento prático, transmitido de geração em geração por carpinteiros, ferreiros e agricultores.
Cada parte da carroça tinha uma função clara, pensada para suportar peso, vencer terrenos irregulares e trabalhar em conjunto com a tração animal.
Estrutura e materiais
A carroça tradicional do Sul do Brasil era construída em madeira, e ferro moldado por ferreiros experientes mas com poucos recursos tecnológicos. Sua estrutura básica era composta por:
Quatro rodas, sendo as traseiras, geralmente maiores que as dianteiras
Chassi inferior formado por vigas quadradas de madeira
Caixa de carga com laterais, traseira e dianteira fechadas
As laterais da caixa eram feitas com duas tábuas largas dispostas horizontalmente, fixadas por travessas verticais finas, deixando pequenos espaços entre as tábuas. As tampas dianteira e traseira seguiam o mesmo padrão; a dianteira, porém, era dotada de uma madeira central, utilizada para amarrar a corda dos bois nos momentos de espera. A caixa da carroça era fixada por meio de quatro fueiros, estacas verticais presas diretamente ao chassi, confeccionadas em madeira e reforçadas com chapas de aço.
As rodas: resistência e durabilidade
As rodas eram um dos elementos mais importantes da carroça. Elas eram compostas por:
Raios de madeira
Cambotas, que eram frações semicirculares de madeira unidas para formar o aro completo da roda
Cubo central robusto, com acabamento metálico
Na parte externa, a roda recebia uma chapa metálica, responsável por aumentar a durabilidade da madeira e permitir o uso constante em estradas de chão, trilhas e áreas de lavoura.
As rodas traseiras, maiores e mais robustas, suportavam a maior parte do peso da carga. Já as rodas dianteiras, menores, giravam em conjunto através do sistema de articulação, permitindo que a carroça fizesse curvas mesmo em espaços reduzidos.
A tesoura (em alguns locais chamada de zorra, mas este seria outro equipamento agrícola): o coração da direção
O conjunto dianteiro articulado, conhecido como tesoura, era formado por duas longarinas de madeira dispostas em formato de “V”. Esse sistema ficava fixado diretamente ao chassi e tinha duas funções fundamentais:
Permitir o giro do conjunto dianteiro, garantindo a direção da carroça
Transmitir o esforço do cabeçalho para a estrutura principal
A tesoura ficava abaixo da caixa de carga, sendo visível apenas a parte onde se encontrava o pino que a ligava ao cabeçalho. Esse detalhe fazia com que, muitas vezes, sua importância passasse despercebida para quem observava a carroça sem conhecer sua construção.
O cabeçalho e o sistema de tração
O cabeçalho era uma longa peça de madeira, geralmente reta e de seção simples, ligada à carroça no ponto de convergência da tesoura. Sua fixação permitia movimento vertical, essencial para compensar desníveis do terreno e a altura dos bois.
Próximo à extremidade frontal do cabeçalho havia um pino metálico vertical, utilizado como freio, especialmente em descidas. Cerca de 20 cm atrás desse pino ficava o gancho de tração, onde se engatava a corrente proveniente da canga dos bois. Esse gancho era o verdadeiro ponto de tração do conjunto.
Reforços metálicos: resistência ao esforço
Para evitar torções e quebras, o cabeçalho recebia duas varetas metálicas de reforço, uma de cada lado. Essas varetas possuíam argolas nas extremidades e eram fixadas:
No cabeçalho, por meio de pinos horizontais
Na carroça, por ganchos metálicos presos diretamente ao eixo dianteiro
Esses reforços trabalhavam sempre tensionados, distribuindo os esforços e aumentando a vida útil da estrutura.
O freio da carroça
O sistema de freio da carroça era simples e rudimentar, porém funcional. Na lateral direita da carroça (vista de frente) localizava-se o breque, uma rosca grossa fixada a um suporte que, ao ser girada, tracionava uma vareta metálica. Essa vareta acionava uma estrutura de madeira chamada sarangão, confeccionada em madeira de seção quadrada. Em suas duas extremidades, o sarangão possuía sapatas, blocos de madeira grossa que eram pressionados contra as chapas metálicas das rodas traseiras, fazendo com que a carroça reduzisse a velocidade ou até mesmo parasse completamente.
Transporte de lenha
Escoamento da produção agrícola
Pequenas mudanças
Deslocamento entre propriedades e entre o campo e a cidade
O ritmo lento imposto pelos bois não era visto como um problema, mas como parte natural da vida no campo. O som das rodas, o rangido da madeira e o passo cadenciado dos animais faziam parte do cotidiano.
Com a mecanização do campo e o surgimento de caminhões e tratores, a carroça foi gradualmente deixando de ser utilizada. Hoje, é difícil encontrar carroças em uso ativo, e muitas das que restam estão preservadas apenas como lembrança de um tempo passado.
Ainda assim, a carroça tradicional do Sul do Brasil permanece como um símbolo de trabalho, adaptação e engenhosidade, representando um período em que o conhecimento prático e a relação com os animais eram fundamentais para a sobrevivência no meio rural.
Preservar sua memória — seja por meio de relatos, fotografias ou reconstruções fiéis — é também preservar a história das pessoas que ajudaram a construir a região.
Uso no cotidiano rural
No passado, a carroça era usada para praticamente tudo:Transporte de lenha
Escoamento da produção agrícola
Pequenas mudanças
Deslocamento entre propriedades e entre o campo e a cidade
O ritmo lento imposto pelos bois não era visto como um problema, mas como parte natural da vida no campo. O som das rodas, o rangido da madeira e o passo cadenciado dos animais faziam parte do cotidiano.
Da ferramenta ao patrimônio cultural
Com a mecanização do campo e o surgimento de caminhões e tratores, a carroça foi gradualmente deixando de ser utilizada. Hoje, é difícil encontrar carroças em uso ativo, e muitas das que restam estão preservadas apenas como lembrança de um tempo passado.
Ainda assim, a carroça tradicional do Sul do Brasil permanece como um símbolo de trabalho, adaptação e engenhosidade, representando um período em que o conhecimento prático e a relação com os animais eram fundamentais para a sobrevivência no meio rural.
Preservar sua memória — seja por meio de relatos, fotografias ou reconstruções fiéis — é também preservar a história das pessoas que ajudaram a construir a região.



Meu pai que era marceneiro fabricou muitas carroças junto com seu companheiro que era ferreiro lá em Corbélia !
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